*Marcelo Pereira Rodrigues
No mundo do futebol profissional, notadamente nas equipes de ponta do Brasil, existe uma incompreensão muito grande acerca da gestão do futebol. Ao se fechar um grupo de trabalho na tríade comissão técnico- diretoria- atleta, exclue-se automaticamente pessoas que não acrescentarão em nada ao bom andamento de um trabalho. É voz corrente entre os "boleiros" a importância da torcida e da imprensa, mas observando mais de perto as relações interpessoais entre os agentes diretos (parte da equipe) e agentes indiretos (imprensa e torcedores), nota-se algumas confusões que atrapalham aos membros de uma equipe.
A ver: a incompreensão e por vezes a falta de respeito de algumas pessoas da imprensa para com alguns jogadores. No conforto de suas cadeiras macias, no ar refrigerado de um estúdio de televisão, alguns jornalistas que nunca chutaram uma bola na vida apresentam as notas para as atuações: "O jogador Godofredo não cumpriu bem as funções táticas do técnico. Displicente em campo, sem vontade e errando todos os passes. Não acertou uma jogada. Nota 2!". Realmente, fico impressionado com o vasto conhecimento do jornalista em questão. Pois bem, este que vos escreve assiste a partidas de futebol desde 1984, e confesso que nunca tive a competência para avaliar uma função tática de uma equipe. Sou meio "boleiro", sei quando o time está atacando ou defendendo, sei da raça e vontade de alguns atletas, mas determinar o que é uma função tática não passa pela minha competência. Ao falar que determinado atleta não acertou uma jogada em noventa minutos, desconfio de uma perseguição infantil. A nota 2 parece até um ponto de participação. É por isso que observo, nos "boleiros", o respeito com jornalistas e comentaristas que foram jogadores, tais Casagrande, Caio, Paulo Roberto Falcão, Júnior, Neto e Edmundo. O "boleiro" passa pelo rito da passagem da profissão: as dificuldades no início (incluindo aí o trote de lavar as cuecas dos mais experientes (sabiam disso?), a ajuda de custo que mal dá para pagar as passagens de ônibus etc., etc., etc.). Advém daí certa blindagem que os atletas deveriam tomar quando conseguem se sobressair nessa peneira rigorosa que é o advento no futebol e a permanência em um time de ponta.
No ano passado, o diretor de futebol do Corinthians, Dr. Mário Gobbi Filho, foi mal interpretado ao conceder uma entrevista e citar os "poucos neurônios" de alguns torcedores influenciados pela mídia. Isso quando do propalado e equivocado "desmanche do Corinthians”, (desmanche que eu conheço é o de automóveis) quando negociaram os atletas André Santos, Cristian e Douglas. Mas a verdade é que o dirigente estava certo. Essa parcela tão importante no esquema do futebol, que é a torcida, por vezes exagera e dominado pela paixão exacerbada (mas existe paixão regrada?!), perde a noção e cai ao inferno ao assistir a uma eliminação de sua equipe num tão esperado campeonato. As mesmas pessoas que somaram aos estádios e proporcionaram aos clubes o recorde de público e renda, partem para agressões físicas constrangendo atletas e familiares. O futebol profissional, ciência não exata, proporciona estas dificuldades que devem ser sanadas por uma comissão técnica atenta e que proteja aos jogadores.
Nesta equação, imprensa e torcida devem necessariamente ser postos de lado. Há um ditado antigo que gosto muito: "Muito ajuda quem não atrapalha!". Tudo no tempo certo, a visibilidade que a mídia proporciona é inquestionável, do mesmo modo que o apoio dos torcedores nos momentos certos. Antídoto contra isso? Blindagem. Quem está fora, quem está dentro. A profissão mais cobrada e exigida neste país, que faz um planejamento de um ano ser posto em xeque após dois finais de semana ruins. Se a vida dá voltas, no futebol, certamente representado pela bola, ela dá voltas muito mais rápido do que poderíamos imaginar. Blindagem não significa confinamento, da mesma forma que concentração não pode ser visto apenas como aprisionamento. Blinda-se e concentra-se uma equipe no comprometimento de todos para com um objetivo em comum. Defino comprometimento como sendo a junção de compromisso com envolvimento. Dentro de uma comissão técnica, devemos privilegiar àqueles que de fato são os artistas do espetáculo: os atletas profissionais. Eles são os responsáveis pelo caminhar desta prática esportiva que no Brasil já carrega os traços de manifestação cultural.
Então, findo com uma interrogação muito particular: você está fora? Você está dentro? Ser sócio-torcedor ou trajar o uniforme do seu time de coração não o credencia a desrespeitar pais de família que estão trabalhando e suportando uma pressão diária. Do mesmo modo, muitos jornalistas não iriam gostar de ver seus erros de concordância e seu português ruim serem ridicularizados pelos jogadores. Não falo aqui nem da malfadada nota. Aliás, nem este que vos escreve deve escapar do crivo da avaliação de um pseudo-jornalista: "Este texto foi escrito a toque de caixa. Não tem conhecimento de causa, é inoportuno e não possui o vernáculo de um Luis de Camões. Nota 2!"
Marcelo Pereira Rodrigues
nosmpr@hotmail.com
*Palestrante Motivacional e consultor de comissões técnicas do Futebol Profissional.
